🟠A Criptografia do Bitcoin falhou?
Uma falha na geração de entropia de firmwares antigas deixou atacantes reconstruírem seeds e drenarem mais de 1.400 BTC, sem nunca tocar em um único aparelho.
🟠 O problema não foi a criptografia do Bitcoin, mas como a carteira Coldcard foi feita
Resumo. Em 30 de julho de 2026, atacantes esvaziaram carteiras Bitcoin guardadas em hardware wallets Coldcard. O rombo já passa de 1.400 BTC em mais de 4.500 endereços, cerca de US$ 91 milhões, e o total ainda cresce. A causa não foi o roubo do aparelho, nem uma quebra da criptografia do Bitcoin. Foi a forma como uma firmware antiga gerava a aleatoriedade da seed, com entropia fraca demais, o que permitiu adivinhar chaves offline. Quem usou dados privados ou uma passphrase forte ficou de fora.
Na madrugada de 30 de julho de 2026, um punhado de endereços começou a receber Bitcoin de centenas de carteiras que, em tese, estavam entre as mais seguras do mercado. Eram fundos guardados em Coldcard, da empresa canadense Coinkite, um dos hardware wallets mais respeitados pela comunidade Bitcoin, feito justamente para manter a chave privada longe da internet.
Hardware wallet [carteira física]: um aparelho dedicado, do tamanho de um chaveiro, que guarda a chave privada offline e assina as transações dentro de si mesmo, sem nunca expor essa chave a um computador ligado à internet. A Coldcard, fabricada pela canadense Coinkite, é uma das mais conhecidas; é focada só em Bitcoin e projetada para operar isolada da rede, o que a tornou popular entre os usuários mais preocupados com segurança.

Em uma janela de 41 minutos, entre 01h10 e 01h51 UTC, o atacante varreu 1.082,65 BTC, cerca de US$ 70 milhões na cotação do dia, segundo a Galaxy Research. Nos dias seguintes o total subiu para mais de 1.400 BTC, cerca de US$ 91 milhões, e ultrapassou 4.500 endereços. E aqui está o detalhe que assustou o setor: nenhum desses aparelhos foi tocado.

O caso reacende o medo mais antigo do investidor de cripto, o de que a autocustódia seja frágil demais. A leitura correta é o contrário. O que falhou não foi guardar a própria chave. Foi a forma como uma firmware específica sorteava essa chave. Dito isso, como alguém rouba um Bitcoin guardado offline sem nunca chegar perto do dispositivo?
Firmware é o programa interno gravado dentro de um aparelho que faz o hardware funcionar e define como ele se comporta, como o "sistema operacional" da Coldcard que controla desde a tela até a geração das chaves.
1. O que é uma frase semente
Toda carteira Bitcoin nasce de um único número secreto, sorteado dentro de um intervalo colossal. Esse número é a matéria-prima de tudo. Dele a carteira deriva, por cálculo matemático, a chave privada e cada um dos endereços que recebem Bitcoin. O nome técnico desse número bruto é entropia, e ele costuma ter 128 ou 256 bits, ou seja, um sorteio entre 2 elevado a 128 ou a 256 possibilidades. É um espaço maior do que o número de átomos no universo visível.
Entropia [aleatoriedade, no caso medida em bits]: a quantidade de acaso real dentro do número que origina a carteira. Cada bit a mais dobra o tamanho do sorteio; cada bit a menos o corta pela metade. 128 bits equivalem a escolher um número entre mais de 300 undecilhões, o que torna adivinhar a seed alheia inviável, desde que o sorteio seja de fato aleatório.
O usuário nunca vê esse número em sua forma crua. Um padrão chamado BIP-39 traduz a entropia, somada a um pequeno código de verificação, nas 12 ou 24 palavras da frase semente (seed phrase) que a pessoa anota no papel. As palavras não são a segurança em si. São apenas uma maneira legível de escrever o número que foi sorteado. Quem reconstrói esse número reconstrói a carteira inteira, sem precisar do papel nem do aparelho.
Seed phrase [frase semente]: o número secreto, mostrado como 12 ou 24 palavras, do qual saem a chave privada e as chaves públicas da carteira, e destas os endereços que recebem Bitcoin.
É por isso que, nesta etapa, a segurança do Bitcoin não vem de esconder o papel numa gaveta. Vem do tamanho do sorteio. Se o número é escolhido de forma verdadeiramente imprevisível dentro de um espaço tão grande, ninguém adivinha o de outra pessoa, nem com todo o poder de computação do planeta. A palavra decisiva é imprevisível. É exatamente aí que a Coldcard tropeçou.
2. De onde vem o acaso, e como ele encolheu
O número precisa vir de algum lugar, e um bom hardware wallet não confia numa fonte só. Ele combina várias e as mistura, de modo que, se uma falhar, as outras ainda garantem o acaso. No caso da Coldcard, há três caminhos.
O primeiro é um gerador físico de números aleatórios, um circuito dentro do chip que mede ruído elétrico imprevisível, algo que nem o fabricante consegue reproduzir depois.
O segundo é o próprio usuário, e vale entender como funciona na prática. A pessoa pega um dado comum de seis lados, rola na mesa de casa e aperta cada resultado no teclado do próprio aparelho, não num computador. A Coldcard vai acumulando a sequência e passa tudo por uma função matemática que embaralha as rolagens num número único. Cerca de 50 rolagens equivalem a mais de 128 bits, e essa é a única fonte que não exige confiar no hardware, porque o acaso veio da mão do dono, não de um circuito que ele não pode auditar.
O terceiro é um gerador de software, que produz números de aparência aleatória a partir de uma semente inicial. É rápido, mas só é seguro se essa semente vier de uma fonte de fato imprevisível, como as duas anteriores. Sozinho, alimentado por valores conhecidos, ele é frágil. A segurança nasce da soma das três fontes, e foi exatamente essa soma que quebrou.
O problema da Coldcard nasceu na troca entre esses caminhos. Segundo a análise da Galaxy Research, uma migração de biblioteca de software em 2021 confundiu as funções de sorteio. Uma configuração mandava o programa pular o gerador físico, e uma verificação testava apenas se a opção existia, não se ela estava de fato ligada. Sem o ruído do hardware, a carteira caiu no gerador de software, só que alimentado por valores previsíveis, o número de série do chip e os registradores de relógio, coisas que um atacante consegue medir ou estreitar.
O efeito, em linguagem de entropia, foi um colapso. Em vez dos 128 bits esperados, seeds geradas sem dados privados ficaram com cerca de 72 bits nos modelos Mk4, Q e Mk5, e por volta de 40 bits no Mk2 e no Mk3, segundo estimativas do setor. Parece pouca diferença, mas não é.
Cada bit a menos corta o espaço de buscas pela metade. Sair de 128 para 72 bits não deixa a seed um pouco mais fraca; deixa-a trilhões de trilhões de vezes menor, dentro do alcance de quem tem poder de computação para varrê-la. Nos modelos mais antigos, alimentados por identificadores quase fixos, o espaço encolhia ainda mais. O acaso, que era a única defesa, tinha praticamente desaparecido.
3. O ataque que não toca no aparelho
Com o sorteio encolhido, o atacante não precisou invadir nada. Ele fez o que os pesquisadores chamam de enumeração offline. Gerou seeds candidatas no próprio computador, derivou de cada uma as chaves e os endereços correspondentes, pela mesma matemática que qualquer carteira usa, e conferiu na blockchain pública quais desses endereços tinham saldo. Quando um batia com fundos, ele já tinha em mãos a chave privada e bastava assinar a transferência.
Todo esse processo roda na máquina do criminoso. O aparelho da vítima, a caixinha guardada na gaveta, nunca participa. Um sinal denuncia o método. As vítimas se espalham por três formatos de endereço diferentes. Ninguém mira um alvo específico usando três formatos ao mesmo tempo. Isso não é caça a uma pessoa; é uma peneira passando por toda a rede.
4. Por que este roubo é diferente
Quase todo roubo de cripto tenta alcançar a chave sem quebrar a criptografia. O golpista engana o usuário para que ele digite a seed num site falso, instala um malware que lê a tela, ou consegue acesso físico ao dispositivo. Em todos esses casos, a chave existe e está correta. O crime é chegar até ela.
O ataque à Coldcard inverte a lógica. Ele não persegue a chave, ele a recalcula. Como o sorteio que criou a seed foi fraco, o atacante reconstrói a mesma chave do zero, sem nunca ver o aparelho nem enganar o dono. É a diferença entre arrombar um cofre e descobrir que a combinação era previsível desde a fábrica.
5. Quem estava protegido, e por quê
Carteiras cujas seeds foram geradas com pelo menos 50 rolagens de dados privadas ou protegidas por uma passphrase BIP-39 forte e única não estavam em risco por essa falha. Os dados adicionam aleatoriedade real que o software, por erro de configuração, não tinha, e a passphrase cria um segredo extra que nenhuma enumeração de seed alcança.
A Coinkite também informou que outros produtos da marca, como o Tapsigner, o Opendime e o Satscard, não foram afetados, e que carteiras multisig ficaram protegidas quando a seed vulnerável era apenas uma das chaves da combinação. É um lembrete de que dividir a assinatura entre chaves independentes limita o estrago quando uma delas falha.
A Coinkite lançou firmware corrigida logo após o ataque, mas com um alerta importante. Atualizar não repara uma seed já criada. Pior, as Mk2 e Mk3 não têm correção disponível, então nesses modelos não basta atualizar. Quem gerou a carteira numa versão vulnerável precisa criar uma seed nova, gerada com segurança, e mover os fundos para ela. Trocar a fechadura não adianta se a chave velha continua adivinhável.
6. O rastro e a reação do mercado
A mesma transparência da blockchain que ajudou a rastrear o roubo pode ter começado a expor o próprio atacante. Segundo Clay Garrett, da Block, o criminoso usou uma conta paga em um conhecido provedor de dados on-chain para consultar os endereços durante a varredura, e os registros internos desse provedor teriam batido com o padrão do ataque com precisão notável. O material foi repassado às autoridades.
Parte dos investidores, assustada, começou a mandar Bitcoin de volta para as corretoras centralizadas. É uma resposta compreensível, mas que confunde o diagnóstico. O problema não foi ter as próprias chaves, ou a criptografia em si. Foi confiar num sorteio que, naquela firmware, estava quebrado.
Caso houvessem feito um operacional de segurança melhor fundamentado, como passphrase, rolagem de dados ou multisig, nada disso teria ocorrido.
A passphrase é uma palavra ou frase extra, definida por você, que se soma às 12 ou 24 palavras da seed para gerar a carteira. Criá-la é simplesmente escolher esse texto — qualquer sequência de letras, números ou símbolos — e ativá-la na carteira, digitando-a no momento de acessar os fundos. Não existe passphrase “certa” ou pré-definida: cada texto diferente deriva uma carteira completamente distinta, e o sistema diferencia maiúsculas, espaços e acentos, de modo que uma variação mínima já leva a outro conjunto de endereços. Ela não fica gravada no aparelho, então quem tem só as palavras da seed não chega aos fundos sem também conhecer a passphrase — foi exatamente essa segunda metade que blindou parte dos usuários no ataque à Coldcard.
A multisig (multiassinatura) é uma carteira que exige mais de uma chave para gastar, como um cofre que só abre com duas ou três fechaduras giradas ao mesmo tempo. Um arranjo comum é o 2-de-3, em que existem três chaves independentes e qualquer transação precisa de pelo menos duas. Se uma dessas chaves for comprometida — inclusive por uma seed fraca como a da falha — o dinheiro continua trancado, porque uma chave sozinha não move nada. É o que limitou o estrago das vítimas que guardavam fundos em multisig.
7. Considerações Finais
Nenhum hardware wallet é perfeito, e tratar qualquer produto como infalível é o primeiro erro. A boa notícia é que as defesas que funcionaram já eram conhecidas e estão ao alcance de qualquer usuário. Adicionar entropia própria com dados, usar uma passphrase forte e verificar os endereços em mais de um dispositivo.
O caso Coldcard não é um argumento contra a autocustódia. É um argumento a favor de fazê-la com rigor. Guardar a própria chave continua sendo o uso original do Bitcoin. O que o episódio mostra é que a qualidade da implementação importa tanto quanto a decisão de custodiar.
A blockchain do Bitcoin não foi violada. A criptografia não foi quebrada. O que falhou foi um elo humano e de engenharia, a geração de aleatoriedade dentro de uma firmware específica, e foi o suficiente para pôr mais de US$ 70 milhões em movimento em menos de uma hora.
Segurança em Bitcoin não é um produto que se compra e esquece; é um conjunto de escolhas que se repetem a cada carteira criada. Dados próprios, passphrase e verificação não são excesso de zelo. Um operacional de segurança bem definido foi o que separou quem passou incólume por este ataque de quem acordou sem os seus satoshis.
No fim, a Coldcard não provou que a autocustódia é perigosa. Provou que, no Bitcoin, delegar a própria segurança, mesmo a um bom aparelho, nunca substitui entender o que se está fazendo.
Fontes: Coinkite (2026), aviso oficial sobre geração de seed da Coldcard (blog.coinkite.com); CoinDesk (2026), reportagens sobre o mecanismo do ataque, a expansão para 4.500 endereços e a reação do mercado; Galaxy Research (2026), análise on-chain do incidente citada pela CoinDesk; The Hacker News (2026), cronologia técnica do roubo; Decrypt (2026), cobertura do exploit; coldcardwatch.com (2026), rastreador ao vivo dos endereços drenados, tratado como mínimo verificado. Valores em dólar variam conforme a cotação do Bitcoin e a contagem de endereços na data de consulta.
Autor: Daniel Ascen - Economista, Analista de Criptoativos e Fundador da Ascen Cripto








